Esqueletos no armário No ratings yet.


10/10/2004

Recebi um e-mail da Amazon.com oferecendo um livro. Não um livro qualquer, mas um lançamento, "The Naked Corporation: How the Age of Transparency Will Revolutionize Business", escrito por Don Tapscott e David Ticoll. Enquanto minha mão negocia com o escorpião em meu bolso, tento descobrir como souberam que, dentre os milhões de livros em seu acervo, oferecer este para mim seria como mostrar doce para criança. Ou para alguém de regime, na terça-feira.

Se ficasse só no e-mail eu teria achado que foi coincidência, mas acontece que todas as vezes que entro no site da livraria surge na tela uma promoção endereçada ao meu gosto e necessidade. A verdade é que, usando um dos melhores sistemas de CRM on-line do mundo, a Amazon registra minhas compras e os livros que visitei em seu site para definir meu perfil de compra. Me observam por um buraco de fechadura digital.

A cada compra o sistema me conhece melhor e compara minhas preferências com as de pessoas que compraram livros semelhantes, criando assim ofertas que se encaixam perfeitamente às minhas concupiscências. Cada passo que clico dentro do site acrescenta mais um afluente de informação ao gigantesco manancial da livraria que tem nome de rio. Não sei se choro. Onde fica minha privacidade?

Bem, se você quer privacidade é melhor se mudar para o Himalaia. Mas fique atento para não esbarrar em algum fotógrafo da National Geographics.

A verdade é que eu e você estamos sendo constantemente seguidos, rastreados, filmados, examinados e armazenados. Seu celular está no bolso? Alguém sabe onde você está. Parou no posto de gasolina, no caixa eletrônico, comprou com cartão? Tudo ficou registrado. Conectou-se à Internet? Essa, então…!

Nunca empresas e pessoas foram tão escrutinadas de forma oficial, informal e virtual. Nem ficou tão difícil para uma empresa esconder o que faz ou o que fez. Os armários onde costumamos guardar os esqueletos agora são de vidro e muito bem iluminados.

Aliás, esse é o tema do livro que a Amazon me ofereceu e cujo título pode ser traduzido por “A Corporação Nua: Como a Era da Transparência Revolucionará os Negócios”. Lembrei-me de ter comprado lá um livro do mesmo autor, "Capital Digital". Foi quando literalmente deixei nas mãos deles minha impressão digital para poderem botar a mão em meu capital.

Hoje posamos nus para uma revista permanente em nossos bolsos em busca de informações. Todo cuidado é pouco na forma como você vive ou trabalha. Já não posso mais fazer o que quiser ou dizer o que bem entender sem correr riscos de sofrer as conseqüências disso agora ou depois. Alguns esqueletos o armário revela de imediato. Outros ficam ali mumificados, mas um dia aparecem. Como naqueles filmes policiais na TV, tudo o que você disser poderá ser usado contra você.

Porém, se a Amazon ou outra empresa qualquer pode me radiografar como bem entender, a recíproca é verdadeira. Nunca foi tão fácil obter informações de empresas, pessoas, produtos ou serviços. Usando a Internet qualquer cidadão comum pode enxergar dentro das corporações e, se não gostar do que viu, usar sua rede de relacionamentos para mobilizar multidões em questão de minutos e cobrar ou reivindicar algo.

Grandes empresas, que desfilavam vestes reais tecidas com o mais fino ouro, já não agüentam mais ouvir o menino gritar: “O rei está nu!”. De onde você acha que vem toda essa preocupação corporativa com ética nos negócios, responsabilidade social e cuidados com o meio-ambiente? Da transparência que a tecnologia criou e dos milhões de grilos-falantes que ela capacitou. Uma consciência virtual atazanando sem parar a mente corporativa que mentir.

Essa preocupação com transparência não existia há alguns anos, pelo menos numa loja de eletrodomésticos de minha cidade. Naquela época coisas como PROCON e Código de Defesa do Consumidor eram ficção científica e os gorilas que entregavam os produtos eram os mesmos que iam buscar quando o cheque era devolvido.

Foi o que fizeram ao invadir a casa da compradora de um fogão. Dominaram a cozinha, desligaram o gás, jogaram as panelas sobre a pia e carregaram o fogão, ainda quente, de volta à loja. Sem dar ouvidos às queixas da breve proprietária, cuja mão insistia em permanecer agarrada ao puxador do forno.

Depois de uma limpeza rápida e superficial, a peça foi devolvida à embalagem e guardada no depósito até a próxima venda, o que só ocorreu vários dias depois. Outra vez vendido, o fogão foi novamente devolvido, desta vez pela própria compradora. Mas não ficou nisso. A mulher não tinha Internet, mas isso não evitou que suas queixas se espalhassem rapidamente pela cidade.

Indignada, ela escancarou a boca e todo mundo ficou sabendo do esqueleto que a empresa guardava no armário. Bem, esta é uma figura de linguagem. Não foi propriamente um esqueleto que ela encontrou, e nem foi num armário. O que ela achou no forno daquele errante fogão foi um frango, semi-assado, seco e mumificado.


Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja em www.mariopersona.com.br

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