Leite e Pinga


24/07/2004


“Óia como bebe
Esse povo do Brasil
Inxuga um garrafom
Mais depressa que funi.”
(Adágio Popular)

 

 

O mês de março de 2004 ficará marcado na história da publicidade brasileira pelo caso envolvendo duas marcas, Brahma e Nova Schin; duas empresas, Ambev/Interbrew e Schincariol; dois publicitários renomados, Nizan Guanaes e Eduardo Fischer; e um único garoto-propaganda, Zeca Pagodinho.

 

No rastro de toda a celeuma causada pela mudança de lado do Zeca enquanto a partida ainda era jogada, veio a superexposição gratuita dos protagonistas na mídia. E, a reboque, debates sobre dinheiro, quebra de contrato e ética. Debates travados em mesas de bar, regados a cerveja e possivelmente concluídos em uma pizzaria.

 

Debates que não se propuseram a abordar a questão do alcoolismo entre os jovens, sua participação nos índices de acidentes automobilísticos, seu custo social pelas vidas ceifadas e pela esperança abreviada.

 

Nossos jovens começam a beber cada vez mais cedo, influenciados pela publicidade, que projeta uma imagem adulta idealizada, e pela facilidade em adquirir bebida, face à ausência de fiscalização e punição pela comercialização de produtos alcoólicos a menores, em que pese o rigor da legislação existente.

 

O CONAR, Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária, entidade respeitada em seu meio, editou em 1o de outubro de 2003, em vigor desde 31 de dezembro, as novas resoluções para normas éticas de publicidade de bebidas alcoólicas. A primeira norma, denominada “Regra Geral”, diz: “Deverá ser estruturada com a finalidade precípua de difundir a marca do produto e suas características de maneira socialmente responsável. Assim, é aconselhável que o respectivo slogan não empregue apelo de consumo em seu enunciado”.

 

Curiosamente, o slogan de uma das empresas supracitadas é “Experimenta”, no imperativo. Não seria isso apelo ao consumo? E ser socialmente responsável não envolve também incentivar práticas éticas?

 

Ainda na faculdade, estudando “Técnicas de Comunicação com o Mercado”, meu então, e eterno, mestre Marcus Vinícius definiu o que é uma agência de publicidade: “É uma empresa como outra qualquer com fins lucrativos onde se pratica ao extremo o capitalismo selvagem”. Sábias palavras…

 

Segundo dados do IBGE, ano-base 2000, o Brasil apresenta consumo anual per capita equivalente a 66 litros de refrigerante, 49 litros de cerveja e apenas 30 litros de leite fluido (este número se eleva para 127 litros quando considerados todos os derivados do leite, porém ainda muito abaixo dos 215 litros recomendados pela Organização Mundial da Saúde). Além destes quantitativos, chama-nos a atenção os valores envolvidos na compra destes produtos, conforme ilustra a tabela abaixo:

 

Produto

Embalagem

Preço Unitário

Preço/Litro

Refrigerante Coca-Cola

2 litros

R$ 2,48

R$ 1,24

Refrigerante Guaraná Antarctica

2 litros

R$ 1,89

R$ 0,95

Refrigerante Convenção (Tubaína)

2 litros

R$ 1,35

R$ 0,68

Cerveja Antarctica

355 ml

R$ 0,79

R$ 2,23

Leite Longa Vida Bom Cheff

1 litro

R$ 1,05

R$ 1,05

Aguardente de Cana Rosa

970 ml

R$ 2,00

R$ 2,06

 

Fonte: www.paodeacucar.com.br, em 05/04/2004.

 

A triste constatação da realidade permite-nos concluir que o brasileiro médio gasta por ano mais com cerveja, seguido por refrigerante e, por último, leite. Isso sinaliza para um problema cultural, pois há uma percepção de valor agregado superior dos dois primeiros produtos.

 

Reflexo da política neoliberal que dogmatiza o “Estado mínimo”, vivemos numa nação onde um litro de aguardente de cana, com teor alcoólico de 40 graus Gay Lussac, é tão acessível quanto um alimento fundamental como o leite.

 

Necessitamos de políticas públicas para educar os consumidores, restringir a publicidade, elevar os preços e limitar a venda de bebidas alcoólicas. Ou teremos que canalizar recursos para combater, além da cirrose, a osteoporose.

 

 

Tom Coelho, com graduação em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP e especialização em Marketing pela MMS/SP e em Qualidade de Vida no Trabalho pela FIA-FEA/USP, é empresário, consultor, professor universitário, escritor e palestrante. Diretor da Infinity Consulting, Diretor do Simb/Abrinq e Membro Executivo do NJE/Fiesp.

Site: www.tomcoelho.com.br

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