Nos bastidores da criação


07/11/2004

Como milhões de pessoas de várias gerações em todo o mundo, sempre tive uma grande fascinação pelo musical vencedor do Oscar de 1966 “The Sound of Music”, estrelado por Julie Andrews. De tanto ouvir, durante anos, os comentários entusiasmados de meus irmãos sobre o filme, quando o assisti pela primeira vez, ainda criança, tive a impressão de já tê-lo assistido, tamanho era o meu grau de ansiedade e intimidade com o filme.

Assistindo o DVD, tive oportunidade de, através do making of, ter uma idéia de todo o trabalho, aparentemente invisível, para que o filme pudesse ser produzido. Confesso que mesmo sendo um grande admirador do filme, nunca tinha pensado nele como uma grande produção de Hollywood, significando, compras de direitos autorais, estudos de pré-produção, negociações intermináveis, escolha de elenco, de locações, treinamentos, ensaios, criação de roteiro, das músicas, dos figurinos, dificuldades com viagens, dias de chuva, frio e todo um universo de acontecimentos reais, problemas, soluções, encontros e desencontros que normalmente acontecem e que não imaginamos existir quando apenas vemos um trabalho finalizado.

Essas descobertas fizeram-me pensar no trabalho em design e na certa frustração, que às vezes sinto, e acredito que todos que trabalham com criação e produção também devam sentir, que é a constatação da grande dificuldade que muitas pessoas têm em visualizar todo o processo criativo que a equipe responsável por um determinado projeto trilha quando desenvolve um trabalho de design quando apenas o vêem pronto.

A experiência que cada profissional adquire com o passar do tempo, a vivência resultante de leituras, viagens e de muita curiosidade sobre tudo, são pré-requisitos para a profissão. Além disso, são realizados estudos e pesquisas de mercado, de público e da concorrência, com horas de trabalho para as resoluções iniciais, geração das primeiras alternativas, escolhas das alternativas, desenvolvimento de layouts, pesquisas de materiais, de cores, de custo, de produção e muitas outras ações que, às vezes, não ficam claramente explicitas ao cliente em reuniões para apresentações da empresa, de um orçamento estimado ou do projeto solicitado.

Felizmente, com o tempo e por meio dos resultados obtidos, o cliente acaba descobrindo a importância de um trabalho bem-feito em design, bem como todas as etapas necessárias para a sua concepção, desenvolvimento e implantação. Guardada as respectivas proporções, qualquer trabalho de design, assim como as grandes produções cinematográficas e artísticas, necessita de ações que pessoas leigas, inclusive a maioria dos clientes, não conseguem visualizar e muito menos imaginar que existem.

O caminho criativo é longo e cheio de conquistas. Assim como um Picasso pode desenhar deformações cubistas, pois já tinha provado que dominava o figurativo e o acadêmico, um bom designer, ao apresentar uma solução ao cliente, que à primeira vista pode parecer simples e lógica, merece respeito, pois com certeza ele já experimentou antecipadamente todas as possíveis soluções do trabalho. Algumas complicadas, outras exageradas ou inadequadas.

É preciso entender que um designer, além de não ser um ilusionista, do tipo que tira soluções fáceis da cartola, também não é aquele que inventa a roda desnecessariamente. Ele deve ter, sim, a capacidade e a responsabilidade para, atendendo ao que lhe foi solicitado, encontrar soluções criativas, econômicas e viáveis para marcas, produtos e empresas.

Meu objetivo não é aumentar a importância do trabalho de um designer, alegando que o que fazemos é algo muito difícil, comparado aos 12 trabalhos de Hércules somados. Minha intenção é apenas fazer com que as pessoas, e principalmente os clientes, visualizem e compreendam, um pouco, o que acontece durante o processo criativo. Eu sei que não é fácil, pois falo por mim, que a vida toda me contentei em pensar que para Julie Andrews viver a noviça que virou governanta bastou tirar o hábito, colocar o avental e sair cantando pelas montanhas.

Luiz Renato Roble é designer e diretor de Criação da DATAMAKER DESIGNERS.

Site: www.datamaker.com.br

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