Do Yakult ao Orkut


09/04/2006

No início da década de 70, jogar bola, construir carrinhos de rolimã, empinar pipas e pular corda, eram algumas das típicas brincadeiras nas grandes cidades brasileiras, onde a vida de uma criança era basicamente ir para a escola e na volta, brincar na rua. Independente de classe econômica, do bairro em que residiam ou se freqüentavam escolas públicas ou privadas, a referência social da meninada era o convívio na vizinhança e, principalmente, na rua em que moravam, fazendo com que a estrutura fundamental da sociedade se baseasse realmente no sentido comunitário.

Um dos ícones desta época, era uma senhora que duas ou três vezes por semana comparecia na rua puxando um carrinho do tipo maleta de viagem, só que mais rústica. Na verdade era uma caixa de isopor sobre rodas com centenas de garrafinhas de plástico grafadas em vermelho contendo um liquido leitoso. Era a moça do Yakult. Para os que não conhecem, o Yakult era e ainda é uma bebida a base de leite fermentado por lactobacilos vivos (!) e que tem um sabor único e apaixonante ou, dependendo do consumidor, repugnante.

Para os meninos e meninas que corriam de um lado ao outro, aquilo era como uma dádiva dos deuses. Um cálice divino que chegava sempre na hora certa. Corriam para suas casas em busca de X unidades monetárias – depois de tantos, quem consegue lembrar qual era o dinheiro da época? – para comprar uma, somente uma garrafinha, conforme a dose diária recomendada. Era o momento de sentar na sarjeta, em roda, e se deliciar vagarosamente com os 80ml daquele líquido, contanto prosas e planejando as próximas peripécias que continuariam até o começo da noite quando, um a um, todos seriam convocados a se recolher para um banho, jantar e cama.

Esta era a rotina da, digamos, “comunidade Yakult”. Uma época onde as crianças conheciam e conviviam com outras crianças da rua e não tanto de suas escolas. Época que para se divertir bastava abrir a porta da frente de casa e sair. Visitar um dos raros Shopping Centers era programa para adultos e, quase sempre, para fazer compras. Buffets para festas infantis eram locais inexistentes, pois os aniversários também se comemoravam em casa, com parentes, amigos e vizinhos da rua. A escola era um local aonde se ia para aprender e os colegas de classe eram apenas colegas de classe. Babás eram raramente vistas e as crianças aprendiam a se virar e enfrentar seus problemas sozinhas e na rua. Esta foi uma era em que a infância servia para exercitar o papel de criança sem as neuras e amarras da violência e, muito menos, sem as pressões do avanço tecnológico.

Trinta e poucos anos depois, nós, fruto da comunidade Yakult, participamos e vemos nossos filhos fazerem parte de uma outra e completamente diferente fase, apesar da semelhança fonética. A era Orkut. Para aqueles que ainda não conhecem, mas que ainda vão conhecer, Orkut é, conforme se autodefine, “Uma comunidade on-line que conecta pessoas através de uma rede de amigos confiáveis. Proporciona um ponto de encontro on-line com um ambiente de confraternização, onde é possível fazer novos amigos e conhecer pessoas que têm os mesmos interesses.” Uau!

Apenas pouco mais de três décadas foram necessárias para que mudássemos totalmente a forma de viver em comunidade. O que um dia foi físico e realmente comunitário, hoje é literalmente virtual. A roda de amigos da rua se transformou numa rede on-line. Note o detalhe: “somente para amigos confiáveis!” Infelizmente, assim como digitalizamos todas as informações, livros, textos e imagens, estamos digitalizando nossos relacionamentos.

Na era da comunidade Yakult resolvíamos tudo cara a cara, no mesmo dia, no mesmo instante, com tapas ou beijos. Valores éticos e morais eram exercitados na prática, onde a comunidade julgava, punindo ou absolvendo, nossos atos. Éramos responsáveis por nossas atitudes e dependíamos da personalidade para garantir nossas opiniões.

O protótipo de sociedade que desenhamos agora é bem diferente daquele que poderíamos ter evoluído do simples convívio de rua. Caminhamos para uma perigosa impessoalidade, onde o indivíduo possui login, senha e pode ser e fazer o que quiser, pois está livre para navegar por um mar de bytes, apenas em contato com o teclado e pronto para deletar qualquer coisa ou, pior, qualquer um.

As comunidades virtuais estão substituindo com primazia o convívio necessário para a constituição de uma matriz social sustentável. A violência e o caos urbano contribuem para que nós e nossas crianças nos fechemos cada vez mais no espaço virtual. Este ambiente aparentemente seguro e promissor que estamos moldando para esta geração, tem proporcionado a desejada maximização de tempo e evolução tecnológica, mas, infelizmente, não sabemos com que conseqüências comportamentais para as próximas gerações.

O que vemos hoje são as sementes desta futura geração perdendo suas infâncias por excesso ou total ausência de informação. Independente de ser rico ou pobre, ser criança em nossa sociedade esta gradativamente se alterando. Nada pode compensar a experiência de poder crescer sendo o que realmente somos, de lidar com nossas vitórias e frustrações, de olhar no olho de outra pessoa e dizer o que pensamos. Esta é a base para se aprender a ter respeito ao próximo. Esta é a base do convívio social. Esta é a base do exercício da cidadania e do desenvolvimento sustentável de uma nação.

Entender e ter consciência do que somos hoje é o primeiro passo para iniciarmos um processo de mudança em benefício do que seremos no futuro. Cada vez mais, torna-se imprescindível um debate sobre o quanto a evolução e a revolução de comportamentos e atitudes são capazes de transformar a base moral e ética de nossa sociedade. Por meio desta reflexão é que nortearemos o caminho do processo, pois não podemos apenas olhar para o passado como um ótimo filme de ficção e ter saudades dos bons tempos que não voltam mais. Devemos sim, criar condições sustentáveis para harmonizar o avanço tecnológico aos conceitos básicos de comunidade, pois do contrário, perceberemos o quão insustentável será para nossos filhos e netos lidar com a ausência do Yakult.

Julio Bin é Sócio-diretor da Gecko, Bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Mackenzie e PGC em Marketing pela Westminster University de Londres.

Site relacionado: www.gecko.com.br

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