Compra do Fotolog ilustra força do Brasil na Internet

05/09/2007
 
Os executivos do Fotolog Inc., de Nova York, comemoraram quando viram um salto no número de pessoas que usavam seu site de compartilhamento de fotos e relacionamentos em 2002. Aí começaram a coçar a cabeça: o crescimento explosivo era no Brasil. Ontem, o Fotolog foi comprado pela parisiense Hi Media Group por cerca de US$ 90 milhões, a mais recente aquisição de um site de relacionamento, e a primeira cuja base de usuários fica em grande parte fora dos Estados Unidos.

Sites de relacionamento ou redes sociais, nas quais os usuários postam perfis, conversam em salas de bate-papo ou entram em comunidades, têm rapidamente se tornado uma das mais cobiçadas propriedades na internet, representando metade dos dez sites mais visitados no mundo. Nos Estados Unidos, o Facebook.com e o Myspace.com são os sites mais conhecidos, atraindo dezenas de milhões de visitantes por dia. Agora, com a saturação do mercado americano, a atenção está se voltando para outros mercados, particularmente os emergentes como a América Latina, onde o uso de internet está crescendo rapidamente e a concorrência é menor.

A aquisição do Fotolog está também mostrando o papel surpreendente do Brasil como um árbitro do sucesso da internet. Com alguns dos maiores entusiastas de internet do mundo, o país está funcionando como um indicador das tendências do futuro, diz John Borthwick, diretor-presidente do Fotolog e ex-executivo de tecnologia da Time Warner Inc. e da AOL.
Apesar de ser pouco conhecido nos EUA, o site primeiro deslanchou no Brasil e desde então se tornou um sucesso em países como o Chile e a Argentina, onde está no primeiro ou segundo lugares de sites mais visitados, dependendo da semana. Os usuários normalmente põem nele apenas uma fotografia por dia, mas podem passar várias horas por dia adicionando poemas ou deixando mensagens para os amigos.

A Hi Media, a terceira maior empresa de propaganda na internet da Europa, informou ontem que vai pagar cerca de US$ 90 milhões, 75% disso em ações, para adquirir o Fotolog, que havia anteriormente captado US$ 11 milhões de investidores, entre os quais a BV Capital e a 3i Venture Capital. Outras empresas também estão de olho nos usuários de internet latinos. Este mês, o Myspace, da NewsCorp., lançou o Myspace México com o interesse expresso no mercado jovem daquele país. Duas semanas atrás, investidores colocaram US$ 30 milhões no Batanga, um site de relacionamento para os latinos dos EUA que se especializa em bandas populares de música.

O interesse na América Latina tem sido induzido por tendências demográficas favoráveis. Apenas 18% da população tem acesso regular à internet, mas o número está crescendo rapidamente, estimulado pelo aumento da classe média da região. Pesquisas indicam que o Brasil pode ter os usuários mais dedicados à internet do mundo. De acordo com a Neilsen/NetRatings, os brasileiros com conexão de internet em casa a utilizam 23,5 horas por mês, mais do que qualquer um dos dez países pesquisados, inclusive os EUA e o Japão.

Muitos dos serviços de internet deslancham rapidamente no Brasil, dando ao país uma influência maior do que a normal. A Microsoft Corp., por exemplo, informou recentemente que os brasileiros representam 12% dos usuários de seu MSN Messenger – mais do que qualquer outro país, inclusive os EUA. Ainda assim, o Brasil pode também apresentar desafios especiais. A comunidade Orkut, da Google Inc., é o site mais visitado do país, mas quase não é usado nos EUA. A enorme quantidade de brasileiros pode ser parte do problema. Posts in english only!!! (Posts só em inglês!!!), suplica uma comunidade do Orkut para um grupo asiático de nicho.

A reputação do Brasil como um centro de alta atividade da internet está começando a atrair capital. O fundo de capital de risco Draper Fisher Jurvetson começou recentemente um fundo satélite no Brasil, captando US$ 40 milhões com um grupo local, a FIR Capital Partners. Um gerente do FIR, Simon Olson, diz que a idéia é colocar programadores brasileiros para trabalhar com capital americano. O fundo está bancando uma nova empresa de site de relacionamentos, que deve ser lançada nos próximos meses, assim como uma iniciativa em biotecnologia.

Os empresários interessados na região ficaram animados este mês com a abertura de capital do MercadoLibre Inc., uma empresa de Buenos Aires, que captou US$ 333 milhões numa oferta de ações na bolsa eletrônica Nasdaq e viu o papel quase dobrar. O site, que segue o estilo do site americano eBay, foi fundado por um estudante da faculdade de administração da Universidade de Stanford e é o maior de leilões online no Chile, Argentina e Brasil, onde gera a maior parte de suas vendas.

Mesmo assim, é difícil ganhar dinheiro com o tráfego na rede de mercados emergentes. Não só a renda per capita é baixa como também as agências de propaganda locais ainda vêem a Web com ceticismo, preferindo anunciar na TV ou em outdoors. Os anunciantes que optam pela internet pagam uma fração das tarifas cobradas pelos sites americanos.

O Fotolog foi lançado em maio de 2002 pelos empresários Adam Seifer e Scott Heiferman e inicialmente atraiu alguns poucos usuários em Nova York e na Costa Oeste dos EUA. Mas logo chamou a atenção da jornalista e blogger brasileira Cora Rónai. Em pouco tempo, os usuários brasileiros inundaram completamente o site, diz Seifer. Naquela época, o Fotolog tinha apenas quatro funcionários em Nova York; a empresa só lançou uma versão em português este ano.

O interesse no Fotolog, que diz que não gastou quase nada em marketing, continuou a crescer por recomendação boca-a-boca. No fim de 2003, ele começou a fazer sucesso no Chile e depois começou a crescer exponencialmente na Argentina e no México.
No início deste ano, o serviço da empresa, de 25 funcionários, saltou através do Atlântico para a Espanha e Portugal – onde tem crescido 20% ao mês. Usuários têm entrado rapidamente também da Itália e da Alemanha. Foi então que a Hi Media fez uma oferta para comprar a empresa.

Antonio Regalado – The Wall Street Journal

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