As contradições do cenário digital


16/04/2003

A primeira metade de abril foi pródiga na divulgação de números e análises sobre a internet brasileira. Como várias dessas informações foram divulgadas de forma isolada, até porque originárias de fontes distintas e reveladas em locais e dias diferentes, vou resumir aqui os dados mais significativos e capazes de nos ajudar a compor um bom panorama do Brasil digital.

O primeiro número a ser destacado é 2.237.527. Representa o total de hosts da internet brasileira ou o número de máquinas que interligam os nossos computadores pessoais à web. Trata-se do parâmetro mais eficiente para medirmos o tamanho da internet, mas que não deve ser confundido com o número de internautas. Até bem pouco tempo, a média – na verdade, uma convenção aceita internacionalmente – era de dez internautas por host.

Com essa quantidade de máquinas conectadas à internet, o Brasil ultrapassou a França e ocupa agora a nona posição no ranking mundial, divulgado semestralmente pelo Internet Software Consortium (www.isc.org). Ficamos mais perto da Holanda (com 2.415.286 hosts) e da Austrália (2.564.339). Pelo ritmo de crescimento da internet nesses três países é possível subirmos um ponto ou dois até o fim de 2003. O levantamento completo está disponível no site do Comitê Gestor da internet brasileira (www.cg.org.br)a>.

O segundo ponto a ser destacado tem como origem a Anatel. Os números apontam para uma relação de 7,27 pessoas com acesso à internet para cada grupo de cem habitantes. É pouco. Muito pouco. Nos Estados Unidos, para ficarmos com o topo da lista, essa relação é de 65 internautas para cada cem americanos.

A relação entre a quantidade de computadores disponíveis e o número de habitantes também é desconfortável. No Brasil, são 6,26 computadores para cada cem habitantes. Nos EUA, esta relação passa de 60 máquinas para cada grupo de cem americanos.

A cartografia digital da Anatel revela a existência de três países com fronteiras tão nítidas quanto intransponíveis, pelo menos no curto prazo. O Brasil Classe A tem a metade de sua população conectada, nada mal se considerarmos que para a outra metade permanecer off line é pura opção – incompreensível, talvez, mas legítima com toda a certeza. Mas o Brasil Classe A representa apenas 5% do Brasil Real.

O cenário do Brasil Classe B é parecido com o de cima (50% conectados), exceto pelo tamanho, quatro vezes maior. E nem todos os que estão na metade desplugada têm a opção de pular o muro ou atravessar o fosso. Muitos querem e não podem.

Já no Brasil Classe C a situação é completamente diferente. Apenas um em cada dez dos seus habitantes (para arredondar a conta) tem acesso à internet e para a grande maioria passar para o outro lado é um cenário quase proibido. O problema é que o Brasil Classe C é três vezes maior do que a soma dos outros dois Brasis.

Mesmo na hipótese de que nada será feito para estimular os habitantes dos Brasis A e B, a situação de ambos vai melhorar. Pode demorar mais do que o conveniente, mas vai melhorar. No Brasil C, não. Cada dia de omissão contribui para tornar mais desigual a relação. (segue)

Robson Pereira

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